
Segundo um relatório publicado pela própria Embasa, a companhia opera com um Índice Geral de Perdas na Distribuição de Água, após o tratamento, de 41,26%.
A Embasa é uma companhia de serviços de água e esgoto que administra concessões originalmente pertencentes aos municípios baianos. A empresa fornece abastecimento de água para cerca de 9,7 milhões de habitantes do estado e serviços de esgoto para 4,4 milhões de pessoas.
Dos 417 municípios da Bahia, apenas 368 são atendidos com abastecimento de água (88% das cidades do estado), e 116 contam com serviços de esgotamento sanitário (28% das cidades), totalizando mais de 4,23 milhões de ligações ativas de água em dezembro de 2023, sendo 1,62 milhão com ligações de esgoto.
Em 2024, a Embasa reportou uma receita líquida de R$ 4,7 bilhões e um EBITDA de R$ 2,14 bilhões. (EBITDA é a sigla em inglês para “lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização” e é uma métrica financeira que indica a lucratividade operacional de uma empresa, ou seja, sua geração de caixa.)
A Embasa é controlada pelo estado da Bahia, que detém 99,7% do capital total da companhia. O restante, 0,3%, pertence a outros acionistas. Ou seja, juridicamente, para avançar com a privatização, bastaria aumentar a participação de capital de terceiros.
Os resultados financeiros recordes demonstram a capacidade econômica e operacional da companhia, que atua em um setor tradicionalmente monopolista e registra uma das maiores receitas do país.
Recentemente, a Embasa tomou empréstimos de aproximadamente R$ 1,25 bilhão, sob a justificativa de ampliar os serviços de saneamento e promover o desenvolvimento institucional. Esses recursos começaram a ser aplicados a partir de 2023, marcando a entrada da empresa no mercado de capitais pela primeira vez em sua história. Esse movimento permitiu o acesso direto a recursos financeiros de investidores, que, apesar de serem mais caros e de curto prazo, substituíram os tradicionais financiamentos do FGTS e do BNDES, que possuem taxas mais baixas e prazos mais longos.
A receita líquida da Embasa saltou de R$ 3,6 bilhões em 2022 para R$ 4,15 bilhões em 2023, um crescimento de 15%. O EBITDA atingiu R$ 1,14 bilhão (ante R$ 749 milhões em 2022), elevando a margem EBITDA para 27%, um aumento de 6 pontos percentuais em relação ao ano anterior. O lucro líquido também apresentou um avanço significativo, passando de R$ 478 milhões em 2022 para R$ 868 milhões em 2023, alcançando uma margem líquida de 21%, o que representa um crescimento de 8 pontos percentuais.
Já em 2024, o lucro líquido da Embasa atingiu R$ 1.007.478.000,00 (um bilhão, sete milhões e quatrocentos e setenta e oito mil reais). Em resumo, esses números recordes, tanto em valor quanto em margem de lucro, reforçam o compromisso da empresa com o mercado de capitais e sua crescente integração nesse setor.

Enquanto isso, a população de baixa renda — que representa a maioria na Bahia e, coincidentemente, reside nas periferias das cidades — continua sendo a mais afetada pela falta d’água e, principalmente, pela ausência de saneamento básico. Além disso, muitos sequer sabem que têm direito à tarifa social. Atualmente, apenas 540 mil pessoas na Bahia, o que representa 3,6% da população total de 14.850.513 habitantes, usufruem desse benefício, que reduz o valor da conta de água para menos da metade da tarifa normal.
Surpreendentemente, essa tarifa já está em vigor há alguns anos para imóveis residenciais com consumo de até 6m³/mês. Nessas condições, o valor da conta de água passou a ser de R$ 41,18 por mês, o que configura a 11ª tarifa residencial mais barata do país — ou seja, há dez estados onde a tarifa é ainda mais acessível.
Já a Tarifa Residencial Social, destinada a famílias inscritas no programa Bolsa Família, mantém o mesmo limite de consumo mínimo, mas custa apenas R$ 14,97 por mês, o equivalente a R$ 0,50 por dia. Esse valor está muito abaixo do custo real de produção e distribuição da água e, portanto, se sustenta por meio do chamado “subsídio cruzado”. Em outras palavras, o desconto concedido aos beneficiários é compensado pelos consumidores que pagam a tarifa convencional ou valores ainda mais elevados, especialmente nas cidades de maior porte.

Para se inscrever na tarifa social da Embasa, é necessário ser beneficiário cadastrado no programa Bolsa Família do governo federal. “Muitas pessoas têm direito a esse benefício. Basta reunir a documentação e procurar a Embasa ou o CRAS municipal para realizar o cadastro nessa modalidade especial de tarifa”, explica a diretora financeira e comercial da Embasa, Marcela Lima.
Outra questão importante é o reajuste autorizado pela Agersa (Agência Reguladora), que visa compensar a inflação e o aumento dos custos dos insumos utilizados nos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário, como energia elétrica e produtos químicos, além de garantir investimentos.
“Esse reajuste possibilita que a Embasa continue investindo na ampliação do acesso a esses serviços, fundamentais para a saúde da população e para a preservação do meio ambiente, contribuindo para a universalização do saneamento básico no estado da Bahia”, afirma o presidente da empresa, Leonardo Góes.
Segundo a Moody’s, a Embasa tem aplicado reajustes tarifários anuais historicamente acima da inflação.

Por fim, cerca de 40% do território dos municípios baianos já não conta mais com a Embasa como operadora da concessão de saneamento, ou possui contratos prestes a expirar. O maior risco, no entanto, é a possível perda da capital, Salvador, que responde por 34,5% do faturamento total da companhia. Caso isso de fato aconteça, será o fim da Embasa como a conhecemos.

No ano de 2023, uma nova oportunidade foi concedida aos prestadores de serviços públicos de abastecimento de água e esgotamento sanitário por meio da promulgação do revogado Decreto Federal nº 11.466/2023. Esse decreto ampliou a janela de negociação com cada município para a regularização das concessões de fato e prorrogou o prazo para que as companhias de saneamento comprovassem sua capacidade econômico-financeira até 31 de dezembro de 2023.
Em Ipiaú, esse processo ocorreu de forma precipitada. Diante desse cenário, a Embasa agiu estrategicamente, submetendo um novo requerimento à Agersa e à Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) para validar sua capacidade econômico-financeira. O objetivo era demonstrar a viabilidade de seu Plano de Negócios Geral frente aos investimentos necessários para alcançar a universalização dos serviços em 368 municípios até 2033, que ainda optam por permanecer sob a gestão dessa companhia estadual.

Pelo que tudo indica, a Embasa continuará operando com uma das tarifas mais caras do Brasil e do mundo, desperdiçando água — um recurso natural precioso — ao manter um índice alarmante de 41% de perda da água tratada, que se infiltra no subsolo. Enquanto isso, muitos clientes sofrem com a falta d’água e a ausência de saneamento básico, ao mesmo tempo em que cresce a transferência de lucros para instituições financeiras privadas parceiras. Tudo isso ocorre em meio à iminente perda de Salvador, o que pode desencadear o colapso da companhia ou acelerar um processo velado de privatização.
O mais curioso é que, no interior de São Paulo, já existem municípios com apenas 16 mil habitantes que possuem serviço autônomo de água e esgoto municipal.